27 de agosto de 2009
18 de junho de 2009
Cavalgada, 1977.
Após o almoço, o funcionário Sebastião Misson, cortava as unhas do pé, quando o novo sucesso de Roberto Carlos começava a tocar no rádio. Ele pedia que seu colega de serviço aumentasse o volume, porque essa música é muito linda.
A história me agrada porque gosto de pensar que a cena se repetia todos os dias; meu avô cortando infinitamente as unhas do pé, a rádio anunciando eternamente um novo sucesso de Roberto Carlos. Tenho sempre essa sensação quando ele me puxa de canto num almoço em família pra dizer, que em 1977, quando era funcionário da Foz...
A história me agrada porque gosto de pensar que a cena se repetia todos os dias; meu avô cortando infinitamente as unhas do pé, a rádio anunciando eternamente um novo sucesso de Roberto Carlos. Tenho sempre essa sensação quando ele me puxa de canto num almoço em família pra dizer, que em 1977, quando era funcionário da Foz...
3 de junho de 2009
6. [a/c Filipe Misson]
Neste olhar onde parece se ausentar, G. persegue qualquer imagem bastante lúcida sobre tempos esquecidos, depositando-a entre os pratos, talheres, partida de buraco. Espantosa memória que não nos diz nada de fantástico. Me impressiona que carregue assim tão nítido: meus doze anos, seus dez anos, a caçula com cinco, seis; ela olha a vitrine, deslumbrada, um imenso bicho de pelúcia e pam! o vidro, transparente; ela não percebeu. Rimos. E o riso que soltamos agora, ao recordar, parece idêntico com o daquele domingo, famílias como a nossa passeando pela cidade deserta, lojas fechadas, suas vitrines iluminadas e pam!, a menina sabe que não agarrará a pelúcia, embora não entenda já que a pode ver. Rimos porque a cena se repete graças à vida que ele dá a esse dia, esquecido. Vocês lembram? E sim, lembramos, lembramos porque ele se lembra, ele nos faz reviver, ele nos faz rir e a menina agora ri também, agora compreende a sua afobação e não chora mais porque o vidro pam!
28 de maio de 2009
in: TERESA, Arara. edição #8.
Veja bem: o problema não és tu, leitor.
O máximo que nos tem ocorrido é sentir o cheiro do Nosso Desejo. Esse, que por vezes atende por Arara Teresa, ainda que palpável, não se deixa pegar. Olhamos de dentro pra fora, de fora pra dentro, perseguimos a cauda de nosso desejo, mas. Às vezes preferimos largá-lo num canto, entre os livros e partituras, entre os gatos e xícaras de café. E ele se mantém ali: quieto ao nosso lado, no ônibus e, de certa maneira, podemos fruí-lo. Mas o tal Messias, esse, nunca vem. E se ele não gostar da gente? O que garante que você, leitor, precisa gostar?
Este é o ponto, não é? Parece que é aqui que se instaura o divórcio entre o saber e o fazer. Entre o pensar e o escrever ou o pensar e o dizer. Entre o Desejo e a Ação. É aqui que imaginamos um fosso incrível a separar nossas Fantasias da rua, ali onde a vida verdadeiramente acontece, ali onde às vezes é tão difícil atravessar.
Há então um outro lugar. Outro lugar, não a gente, não as nossas cercanias. Estamos desalojados de nós mesmos. Isso que somos - este eu que sentimos - é uma coisa que às vezes acorda completamente coagido e na camisa de força de Nosso Tempo. A imagem do fosso e a ansiedade e a insatisfação de que quanto mais rezamos mais assombração aparece. Como interferir nisso? Como fazer com que o braço de nosso desejo consiga alcançar o outro lado? Como impedir que essa distância aumente, como evitar que essa realidade que recusamos não se perpetue? De que nos vale especular sobre a coerência? De que nos vale buscar a palavra exata ou aprender a tocar flauta? Não seria mais conforme engendrar um câncer?
Falamos então da Procura. Não quer dizer que se alcance ou não se alcance o outro lado. Talvez isso nem interesse.
Ou interessa?
O máximo que nos tem ocorrido é sentir o cheiro do Nosso Desejo. Esse, que por vezes atende por Arara Teresa, ainda que palpável, não se deixa pegar. Olhamos de dentro pra fora, de fora pra dentro, perseguimos a cauda de nosso desejo, mas. Às vezes preferimos largá-lo num canto, entre os livros e partituras, entre os gatos e xícaras de café. E ele se mantém ali: quieto ao nosso lado, no ônibus e, de certa maneira, podemos fruí-lo. Mas o tal Messias, esse, nunca vem. E se ele não gostar da gente? O que garante que você, leitor, precisa gostar?
Este é o ponto, não é? Parece que é aqui que se instaura o divórcio entre o saber e o fazer. Entre o pensar e o escrever ou o pensar e o dizer. Entre o Desejo e a Ação. É aqui que imaginamos um fosso incrível a separar nossas Fantasias da rua, ali onde a vida verdadeiramente acontece, ali onde às vezes é tão difícil atravessar.
Há então um outro lugar. Outro lugar, não a gente, não as nossas cercanias. Estamos desalojados de nós mesmos. Isso que somos - este eu que sentimos - é uma coisa que às vezes acorda completamente coagido e na camisa de força de Nosso Tempo. A imagem do fosso e a ansiedade e a insatisfação de que quanto mais rezamos mais assombração aparece. Como interferir nisso? Como fazer com que o braço de nosso desejo consiga alcançar o outro lado? Como impedir que essa distância aumente, como evitar que essa realidade que recusamos não se perpetue? De que nos vale especular sobre a coerência? De que nos vale buscar a palavra exata ou aprender a tocar flauta? Não seria mais conforme engendrar um câncer?
Falamos então da Procura. Não quer dizer que se alcance ou não se alcance o outro lado. Talvez isso nem interesse.
Ou interessa?
Porque a pergunta e o Arara Teresa?, tantas vezes lançada com raiva e/ou ironia, representa agora uma espécie de prece desesperada. E porque Matheus Misson insiste em me propor sugestões.
12 de maio de 2009
5.
Dá um certo desgosto limpar a varanda: em poucos instantes, está novamente com caganitos de beija-flor. Há este ninho, feito de tudo quanto é tipo de restos, na planta mais alta. Não tive coragem ainda de espiar lá dentro, porque me vem a imagem daquele filhote morto, daquele passarinho que não tinha conserto. Sei que são dois: os bicos ficam pra fora e só se abrem quando o pássaro maior [não sabemos se é a fêmea ou o macho que os alimenta e desejo manter isso um mistério] se aproxima.
No dia do vendaval, Ela se empuleirou no vaso, tentando salvar o ninho. Pensei "caralho-de-menina-louca-da-porra" e nem tentei convencê-la a descer: puxei seu corpo dizendo "deixa assim. Não vai acontecer nada". Depois vieram argumentos mais sólidos: a natureza sabe o que faz, a gente não pode ficar o tempo todo tentando interferir. Sua mão segurava o ninho com tanta firmeza, que tive medo dela causar mais estragos que aquele vento. [Depois vi os noticiários, os estragos feitos, casas e carros destruidos pelas árvores, os dois limpadores de janela presos nos andaimes.]
Conto a Ela essas coisas que vejo nos jornais, enquanto almoço no sofá de minha avó. Não sei se pensa no perigo que correu, se escuta como uma notícia qualquer. Quando penso em escrever sobre, percebo o que a cena guarda de cômico [ou patético?]: Ela agarrando o ninho, eu agarrando suas pernas, ambas tentando salvar o que não carece de cuidado.
Que a natureza sabe o que faz.
No dia do vendaval, Ela se empuleirou no vaso, tentando salvar o ninho. Pensei "caralho-de-menina-louca-da-porra" e nem tentei convencê-la a descer: puxei seu corpo dizendo "deixa assim. Não vai acontecer nada". Depois vieram argumentos mais sólidos: a natureza sabe o que faz, a gente não pode ficar o tempo todo tentando interferir. Sua mão segurava o ninho com tanta firmeza, que tive medo dela causar mais estragos que aquele vento. [Depois vi os noticiários, os estragos feitos, casas e carros destruidos pelas árvores, os dois limpadores de janela presos nos andaimes.]
Conto a Ela essas coisas que vejo nos jornais, enquanto almoço no sofá de minha avó. Não sei se pensa no perigo que correu, se escuta como uma notícia qualquer. Quando penso em escrever sobre, percebo o que a cena guarda de cômico [ou patético?]: Ela agarrando o ninho, eu agarrando suas pernas, ambas tentando salvar o que não carece de cuidado.
Que a natureza sabe o que faz.
dos que não vingam
A cidade. Já não sou capaz de precisar que relação travo com estas ruas, suas esquinas e passantes. Nunca me comovem os mendigos; estão ali, pelos cantos, ao abrigo do frio e da chuva. Mãos estendidas. Não, não me comovem, embora às vezes lamente a madrugada fria, lamente que não tenham para onde ir. Houve mesmo uma vez - inconfessável - que desejei fotografar um deles, escondido numa caixa de papelão, a inscrição "Cuidado: Frágil", protegendo seu rosto das luzes. É assim que caminho muitas vezes, como quem se distrai com um filme, um álbum de fotografias: são apenas imagens que meu olho percorre.
Ao meu lado, os dois. Não dizem nada, mas parecem perceber a movimentação de uma outra maneira. Às vezes apertam o passo, espremem-se entre os corpos. Também não lhes digo nada: que aquele prédio me faz lembrar o centro da cidade naquele domingo. Encontrar algum conhecido numa cidade em que se está apenas de passagem é uma ideia que ainda me estremece. Seguimos para uma rua mais silenciosa, mas não lhes digo nada. Acendo um cigarro e me distraio vendo as pessoas. Um mapa se desenha em minha cabeça e me imagino como um ponto nesse mapa. Tento traçar nossa trajetória, calculando as possibilidades que temos de cruzar com qualquer outro dos pontos que conscientemente evito.
Recordo então a antiga avenida, seu desabrochar em minha adolescência. O asco que me causa suas velhas casas, os antigos estabelecimentos. Os portões que mal escondem os cortiços. Sua ascenção até a velha igreja, sempre tão iluminada. Noutra noite, com outros dois, imaginava que o bairro era uma cidade fantasma e confiava que ao lado deles tudo correria bem. Ali, sim, a sensação de pertencer a cada rua, inclusive as que eu evitava cruzar, mesmo quando dia claro. Um me apontava as histórias escondidas nos becos. Ríamos tanto, confortáveis. O outro, nem tanto. Mas ali permanecia, se deixava ficar, o amanhecer lhe causando tristeza.
Ao meu lado, os dois. Não dizem nada, mas parecem perceber a movimentação de uma outra maneira. Às vezes apertam o passo, espremem-se entre os corpos. Também não lhes digo nada: que aquele prédio me faz lembrar o centro da cidade naquele domingo. Encontrar algum conhecido numa cidade em que se está apenas de passagem é uma ideia que ainda me estremece. Seguimos para uma rua mais silenciosa, mas não lhes digo nada. Acendo um cigarro e me distraio vendo as pessoas. Um mapa se desenha em minha cabeça e me imagino como um ponto nesse mapa. Tento traçar nossa trajetória, calculando as possibilidades que temos de cruzar com qualquer outro dos pontos que conscientemente evito.
Recordo então a antiga avenida, seu desabrochar em minha adolescência. O asco que me causa suas velhas casas, os antigos estabelecimentos. Os portões que mal escondem os cortiços. Sua ascenção até a velha igreja, sempre tão iluminada. Noutra noite, com outros dois, imaginava que o bairro era uma cidade fantasma e confiava que ao lado deles tudo correria bem. Ali, sim, a sensação de pertencer a cada rua, inclusive as que eu evitava cruzar, mesmo quando dia claro. Um me apontava as histórias escondidas nos becos. Ríamos tanto, confortáveis. O outro, nem tanto. Mas ali permanecia, se deixava ficar, o amanhecer lhe causando tristeza.
27 de abril de 2009
4.
Não dou por falta de nada: nenhuma gaveta violada, nenhum companheiro ausente. O discreto tremor das mãos: há anos é assim. Aquele que assoviou ao cachorro não passa. Tampouco o outro, mais alto. Nem o miúdo, dos olhos ausentes. As saias, sim: todas bonitas. Feito cortinas, farfalham. Eu, finjo não ver, mas espreito com o corpo inteiro. O adiantado da hora. A rua Fernando Sabino talvez só exista naquele poema.
15 de abril de 2009
3.
Algumas insônias me são mais suportáveis: há sempre um cheiro novo, um gosto novo que se mistura ao meu suor, ao hálito de cigarro e cerveja. O cantos dos pássaros é bem-vindo e adormeço fácil, sem culpa. Como se alguém houvesse pousado um beijo em minha testa e apagasse - finalmente - essa febre que não existe.
[...]
Me reviro de dor. Arranho o colchão com meus pés, movo a cabeça em gestos rápidos, tentando aplacar essa dor que não existe. Mal sinto os dedos sobre meu ventre. Não posso descrever os dedos desta mão que aos poucos me acalma e me impede de chorar.
A trezentos quilômetros dali, Dona Naná sonha com a neta pedindo ajuda. "O sábado é uma ilusão", escutei alguém dizer.
[...]
Me reviro de dor. Arranho o colchão com meus pés, movo a cabeça em gestos rápidos, tentando aplacar essa dor que não existe. Mal sinto os dedos sobre meu ventre. Não posso descrever os dedos desta mão que aos poucos me acalma e me impede de chorar.
A trezentos quilômetros dali, Dona Naná sonha com a neta pedindo ajuda. "O sábado é uma ilusão", escutei alguém dizer.
17 de março de 2009
viva Exu
no ponto exato onde o desejo finda, inicia-se: eis a vertigem: seus olhos trajados de luz, de uma fúria precisa, adormecida, à espera dessa folia que finalmente chega para saciá-la. A luz no aço da navalha faz sua pupila dilatar; a carne se contrai e num espasmo, num espanto, você, em silêncio, me diz que já não sou o seu lugar. Então tonteio. E pendo. E não quedo.
- A luz, a luz.
[Jaz aqui o início do relato fabuloso acerca dum crime passional mal planejado e não cometido.]
- Quando acordei, o tigre já estava ali com seus olhos púrpuras cravados em mim. Estava, enfim, diante da besta-fera e seu mitológico pelo lustroso. Seus olhos de abismo, as patas enormes e ágeis.
Desprendeu-se aos poucos da luz o felino fantástico. Ganhou delicadas formas e sombra. Sua calda serpenteava diante de meus olhos furiosos. A sombra e a fúria. O medo nos olhos. Me ameaçou com seus encantos. Suas pestanas fechavam-se vagarosamente, sua respiração era lenta demais para um bote. Era o silêncio repleto de ruídos e lembranças de tempos remotos, o silêncio que antecede catástrofes, o silêncio que prevê escolhas. E antes que pudesse esboçar resposta ou fuga, antes que pudesse evitar farsa e fúria, era derrotado pelos gritos desvairados de "viva Exu!".
A platéia atenta, enfurecida, entre um ato e outro, aplaudia: - Viva Exu, viva!
Havia a árvore que chamávamos nossa e fugíamos para esse imaginário lugar, enquanto todos cumpriam o ritual da sesta. Ela, a quem ignorei outros nomes nomeando Luísa, me assustava bastate quando mostrava seus pulsos cortados e ria-se após me roubar beijos; sequer me acostumava com sua língua e salia e ela me afastava bruscamente [num gesto decidido tão delicado e irresistível] para falar quase histericamente sobre o que aprendera sobre os pássaros. Luísa amava tanto os pássaros que eu temia que um dia ela pudesse criar asas e juntar-se a um bando deles.
[Luísa acreditava na eternidade quando falava dos pássaros.]
Pedia sempre para que eu inventasse nomes de animais e cidades e contasse sobre minhas constantes viagens a esses lugares, mas eu tinha muito medo [e desejo, evidentemente] de seus olhos e eram sempre as mesmas aves exóticas, os mesmos tigres de olhar púrpura e Luísa então me olhava com muita pena e desgosto e me cheirava e soprava obscenidades no ouvido para que me sentisse mais humilhado.
Continha o choro. O esforço era tamanho que no peito surgiam fortes pontadas e as pernas perdiam subitamente as forças. Sequer podia ir atrás dela, já distante. E desejava tanto poder alcançá-la nestes momentos.
- Luísa [elas às vezes não escuta] Luísa [ou demota a me encarar] Luísa [fuzila os olhos para desejar-me a boca depois] Luísa [lança um suspiro para me desencorajar] Luísa [tão linda quando corre] Luísa [tem olhos e almas fixos num ponto qualquer] Luísa
[A luz Luísa. A luz.]
Shh! A luz, meu amor. Foi a luz e sua velocidade vertiginosa. Shh! Descansa. Descansa que está tudo bem. Shh! Foi a luz, querida. A luz. Deita aqui, Luísa. Deita aqui, deita.
- Tenho os pulsos tatuados de angústias. As mãos repletas de carícias e promessas. O corpo marcado de cheiros e salivas. Os sentidos inundados de vergonha e café, de insônia e desejo, de luz, fúria e tigre. Venho aqui te ofertar esses pulsos, minhas mãos, meu corpo, meus sentidos, meu amor, venho aqui pedir perdão, venho aqui pra perdoá-lo. Eu vim, Amor, eu vim. Me recebe com flores e fitas, enfeita o chão de pétalas e maçãs, me coroa novamente sua rainha. Vês? Sou a mulher histérica que o ama, sou a louca que suplica: haja justiça, haja navalha, haja Deus para invalidar a constatação de que findo o desejo, inicia-se.
Eis a vertigem.
- Eu sou a mulher histérica que o ama. Como era no princípio, agora e sempre. Amém.
[In: Arara Teresa #02, agosto/06]
12 de março de 2009
10 de março de 2009
meu pássaro-amarelo,
desejo fundar agora uma cidade e fazer da minha língua mais que escândalo: uma pátria.
caminho até o fim dessa tortura. mergulho no rio com o bolso carregado de pedras. sufoco.
vem o menino que cavuca meu olho-pássaro, meu olho-demônio: essa tragédia anunciada.
retalhos coloridos na palma da mão que apanha as crianças, a mão que as salva do abismo.
rodopio entre os mortos: meu tédio.
o meu mundo que já não cabe neste reino, senhor. o sol me cega: me deixa passar.
dou entrevistas aos jornais:
escancaram minha melancolia e ela é tão bonita, tão viva, tão bossa nova que.
eu morro a cada verso. eu me despeço.
Assinar:
Postagens (Atom)